O candidato a deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como Tiririca, provavelmente será o candidato a deputado mais votado do país, com cerca de novecentos mil votos. É evidente que boa parte desses votos, se não a maior parte, é composta por votos de protesto. Depois que as urnas eletrônicas foram implantadas, o pobre do eleitor não pode mais sequer conferir seu voto ao macaco Tião, por exemplo. Alguns eleitores do Tiririca talvez pensem:
"já que a nossa política está essa palhaçada, melhor colocar um palhaço no Congresso."
assim, ao menos, obriga-se a velha política a conviver lado a lado, em pé de igualdade, com o Tiririca. Certo ou errado, não deixa de fazer algum sentido.
Agora a polêmica são as suspeitas de que o candidato Tiririca seja analfabeto, sendo, assim, inelegível. Se isso for verdade, Tiririca faria parte de significativa parcela da população que não sabe ler e escrever. Segundo o IBGE, 9,7% da população maior de 15 anos é analfabeta. 14,1 milhões de brasileiros, portanto. Em algumas regiões, como o Nordeste, o índice é de mais de 18%… Será que essa parcela da população não merece ser representada no Congresso? Qual é a justificativa para impedir que um analfabeto seja eleito, mas, por outro lado, permitir que vote e pague impostos? Lei de 1981 impedia o voto de pobres e analfabetos, mas não impedia que eles fossem eleitos. Agora parece ser o contrário…
Alguns poderão dizer que um analfabeto não teria condições de analisar ou mesmo propor projetos de lei, já que não sabe ler e escrever. Talvez. Mas esse argumento também poderia ser utilizado, por exemplo, para permitir a eleição apenas de pessoas formadas em Direito, afinal, para aprovar, rejeitar e alterar leis, seria preciso entender de normas jurídicas também. A resposta, eu sei, é óbvia: o deputado pode ter assessores para auxiliá-los com as questões jurídicas. Sim, pode, mas também pode ter assistentes que auxiliarão na leitura e redação de projetos. Ora, se a impossibilidade de ler e redigir projetos sozinho fosse o grande problema, deveríamos impedir também a eleição de candidatos cegos.
Outro problema que coloco para vocês. Qual é a definição de analfabeto? Quem consegue escrever o próprio nome já seria considerado alfabetizado? Ou é preciso saber ao menos ler as sílabas e escrever o abecedário? Ou é necessário entender o que se está lendo? Confesso que não pesquisei a definição de analfabeto utilizado nas pesquisas realizadas pelo IBGE, mas aposto que se as pesquisas considerassem também os analfabetos funcionais, ou seja, aqueles que até conseguem ler, mas que não entendem o que estão lendo, os números seriam bem maiores. Com o nível da educação que temos no Brasil, suspeito quemetade da população não passaria numa simples prova de compreensão de texto…
Além disso tudo, não custa lembrar o que foi dito por um famoso colunista político cujo nome, no momento, não recordo: todos os grandes escândalos e mazelas desse país foram causados por gente alfabetizada e com pleno domínio da escrita e da leitura. Lendo isso em consideração, talvez fosse o caso de permitir apenas a eleição de analfabetos…
conclusão de toda essa lenga-lenga, meus caros, seria muito simples, não fosse o singelo artigo 14, §4º da nossa Constituição Federal, que diz apenas o seguinte: “São inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos”. É, aí fica difícil…

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